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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

EXISTEM FANTASMAS? - Ensinamento de Meishu-Sama



Desde épocas remotas há controvérsias sobre a existência de fantasmas, mas eu afirmo que eles existem. Trata-se de uma realidade que ninguém pode negar. Creio que a tese do Inferno e do Paraíso, pregada por Buda, assim como a do Inferno Purgatório e Céu, da "Divina Comédia" de Dante Alighieri (1265-1321), não são teses sem fundamento, absurdas ou ilusórias.
O que é o Mundo Espiritual? Em síntese, o Mundo Espiritual é o mundo da vontade e do pensamento. Sem o empecilho da matéria, há uma liberdade que não existe no Mundo Material.
O espírito pode ir aonde quiser, e mais rapidamente do que uma aeronave. No xintoísmo, as palavras "Tome assento nesse templo, vencendo o tempo e o espaço", proferidas nas cerimónias litúrgicas, significam que um espírito pode cobrir a distância de mil léguas em alguns minutos ou até segundos. Entretanto, a rapidez com que ele se move depende da sua hierarquia. Os espíritos elevados, isto é, aqueles que conseguiram atingir os níveis da hierarquia Divina, são mais velozes. O espírito do nível mais alto da hierarquia Divina pode chegar ao local mais distante num espaço de tempo menor do que a milionésima parte de um segundo, mas o espírito de nível inferior leva algumas dezenas de minutos para cobrir mil léguas. Isso porque, quanto mais baixo o nível do espírito, mais pesado ele é, devido às suas impurezas.
Além disso, por sua própria vontade, o espírito pode aumentar ou diminuir de tamanho. Numa Morada dos Ancestrais com mais ou menos trinta e cinco centímetros de largura, podem tomar assento várias centenas de espírito. Nessa oportunidade, é rigorosamente observada a ordem, isto é, cada um ocupa a posição adequada ao seu nível, dentro da maior disciplina e com a indumentária apropriada. No budismo, eles assentam no seu nome intemporal, escrito numa placa de madeira ou de qualquer outro material; no xintoísmo, assentam num espelho, numa pedra, numa letra ou no "Himorogui" (cruz feita de fibras de linho).
Logicamente, os espíritos ficam muito satisfeitos pelos cultos que lhe são oferecidos de coração, nas ocasiões de culto, as pessoas devem colocar o máximo de sentimento e realizá-lo de forma ideal de acordo com as condições materiais do momento.
Desde épocas remotas, fala-se em pessoas que ocasionalmente vêem fantasmas, mas na maioria dos casos trata-se de espíritos com poucos dias de desencarnados. O grau de densidade das células espirituais dos recém-falecidos é elevado, razão pela qual esses espíritos podem ser vistos por algumas pessoas. Nada há de estranho, portanto, no facto, de muitos terem visto a Ressurreição e a Ascensão de Cristo. Porém, como o espírito de cristo era elevado, Divino, ascendeu ao Céu. Com o passar do tempo, o espírito é purificado, ficando menos denso e, assim, mais difícil de ser visto.
Um fantasma pode entrar e sair livremente por um orifício do tamanho do buraco de uma agulha, pois não tem corpo carnal que lhe estorve a passagem. Em vista disso, muitos podem pensar que o Mundo Espiritual seja o lugar ideal para quem ama a liberdade, mas não é bem assim. Nele existem leis que são aplicadas rigorosamente, e a liberdade é limitada.
Agora falarei rapidamente sobre a expressão facial dos espíritos.
Os fantasmas geralmente são retratados com a a expressão facial dos instantes da morte. Entretanto, com o decorrer do tempo a expressão do espírito vai mudando lentamente, amoldando-se à indole da pessoa. Por exemplo, os tímidos, os pessimistas e os solitários, tomam um aspecto lúgubre, raquítico; os possuidores de natureza diabólica e animalesca, tomam a aparência do próprio demónio; os de pensamento vil ficam com a face disforme, e os que têm bom coração adquirem uma expressão bondosa e bela. Neste mundo, é possível encobrir o pensamento pela configuração chamada corpo carnal, mas no Mundo Espiritual tudo é revelado, aparecendo exactamente como é. Essa imagem verdadeira aparece mais ou menos um ano após a morte.
Num livro da autoria de um grande religioso, há mais ou menos esta referência: "Quando o homem falece, o seu espírito se extingue. O espírito não é eterno, nem tampouco existe o Mundo Espiritual; se existisse, já estaria repleto, pois o número de pessoas que faleceram atinge vários bilhões". Esse autor, apesar de ser um expoente do budismo, desconhece o poder de elasticidade do espírito."

Meishu-Sama, 5 de Fevereiro de 1947

sábado, 10 de outubro de 2015

A ADVERTÊNCIA DOS ANTEPASSADOS: Ensinamento de Meishu-Sama


Os antepassados desejam a felicidade de seus descendentes e a prosperidade de sua linha familiar. Por conseguinte, não negligenciam sua guarda um instante sequer, impedindo-os de cometerem erros e pecados, ou seja, evitando que trilhem o mau caminho. Se um descendente, induzido pelo demónio, comete uma má acção, aplicam-lhe castigos na forma de acidentes ou doenças, não só como advertência mas também para a limpeza dos pecados cometidos anteriormente. No caso do enriquecimento ilícito por parte do descendente, fazem com que este tenha prejuízos, ocasionando, por exemplo, um incêndio ou outras formas de perda, que lhe esgotam a fortuna. Conforme o pecado, aplica-se também a doença como processo de purificação.
Suponhamos que uma criança contraia gripe. Uma gripe comum seria facilmente solucionada através do JOHREI; nesse caso, entretanto, não se verificam bons resultados. A criança tem vómitos frequentes, perda de apetite, acentuado enfraquecimento em poucos dias e acaba morrendo. É uma situação estranha, que se enquadra justamente no que falamos acima: advertência dos antepassados. As causas podem ser várias, entre elas o relacionamento amoroso do pai com outra mulher. Se ele não perceber na primeira advertência, poderão ocorrer-lhe sucessivas perdas de filhos. Estes são sacrificados por um prazer passageiro; trata-se, portanto, de uma conduta bastante reprovável. Os antepassados evitam sacrificar o chefe da família por ser ele o seu sustentáculo, de modo que os filhos tomam o seu lugar.
Vejamos outro exemplo. O chefe de uma família, homem de aproximadamente quarenta anos, nunca havia rezado perante o oratório de antepassados que havia em sua casa. Sua filha, preocupada, conversou com um tio, irmão do pai, e transferiu o oratório para a casa dele. Pensando no futuro, o tio foi à casa do irmão e pediu-lhe que reconhecesse, por escrito, a transferência do oratório, que havia sido transmitido por várias gerações e que estava agora sob a sua guarda. O irmão concordou, mas, quando pegou a caneta, sua mão começou a tremer em espasmos, sua língua contraiu-se e ele não conseguiu mais falar nem escrever. Tentaram vários tratamentos sem nenhum resultado, e por fim vieram a um discípulo meu em busca de cura. Lembro-me de ter ouvido dele a história que a filha desse homem lhe contara. No caso em questão, os antepassados não admitiram que o oratório fosse retirado definitivamente da casa do primogénito, que, por tradição, deveria guardá-lo. Se isso acontecesse, a linhagem da família ficaria alterada, podendo, então, ocorrer a sua extinção.

Meishu-Sama, 5 de fevereiro de 1947

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

VIDA E MORTE: Ensinamento de Meishu-Sama



Para a vida humana, talvez não haja problema tão premente quanto o da morte. Não será, pois, uma grande felicidade se o homem tiver esclarecimentos comprobatórios e não fantásticos, a respeito dessa questão? Desejo esclarecer as dúvidas existentes transmitindo a todas as pessoas o resultado dos meus estudos sobre os fenómenos espirituais. Com relação ao problema da vida após a morte, existem no Ocidente muitas obras famosas, tais como as de Sir Oliver Joseph Lodge (1851-1940) e do Dr. Ward, que são autoridades no assunto. No Japão, temos Wazaburo Assano, um profundo pesquisador com quem eu tive certo relacionamento e que deixou vários trabalhos. Infelizmente, ele faleceu há alguns anos. Falando sobre os fenómenos espirituais, no entanto, quero deixar bem claro que, na medida do possível, basear-me-ei apenas na minha própria experiência. Agirei assim para garantir a exactidão do que digo, pois, como esses fenómenos são invisíveis, é difícil apresentá-los de forma concreta, sem cair em dogmas.
Desprendido do corpo, que se tornou inútil, o espírito retorna ao Mundo Espiritual, onde passa a habitar, começando uma nova vida. Descreverei, inicialmente, como se processa o instante da morte, observado do Mundo Espiritual.
Geralmente o espírito se desprende do corpo pela testa, pela região umbilical ou pela ponta dos dedos do pé. O espírito puro sai pela testa; o que tem muitas máculas, pela ponta dos dedos do pé; o mediano, pela região umbilical. Isso se explica porque o espírito puro praticou o bem enquanto vivia, somou méritos e foi purificado; o que tem muitas máculas somou muitos pecados, e o mediano situou-se entre os tipos mencionados. Tudo está fundamentado na Lei da Concordância.
O exemplo que se segue é a experiência de uma enfermeira que “viu” a morte de um doente; sua descrição é tão perfeita, que serve de ilustração. É um exemplo ocidental, porém, tanto no Ocidente como no Japão, existem pessoas que têm a faculdade de ver espíritos. Não guardei os pormenores da descrição, mas vou reproduzir as partes mais importantes.
“Certa vez – disse ela – fitando um doente prestes a morrer, notei que de sua testa subia algo branco, uma espécie de névoa que, espalhando-se lentamente pelo espaço, tornou-se uma massa disforme, semelhante a uma nuvem. Pouco a pouco, entretanto, começou a tomar a forma humana; minutos depois, apresentou-se exactamente com as mesmas características físicas da pessoa. De pé, no espaço, olhava atentamente seu corpo inerte, junto do qual os familiares choravam. Parecia que desejava mostrar-lhes sua presença, mas desistiu, por saber que estava em dimensão diferente; mudou, então, de posição, dirigiu-se para a janela e saiu suavemente”.
Realmente, a descrição acima retrata muito bem os instantes da morte, que os budistas designam pela expressão “vir para nascer”. De facto, se analisarmos do Mundo Material, é “ir para morrer”, mas, se o fizermos do Mundo Espiritual, é “vir para nascer”. Da mesma forma, ao invés de dizerem “antes de morrer”, eles dizem “antes de nascer”. Assim, o espírito vive no Mundo Espiritual durante determinado tempo, às vezes dezenas, centenas ou milhares de anos, para nascer novamente. Desse modo, o homem nasce e morre muitas vezes. Para se referirem a esse nascer e renascer, os budistas usam a expressão “Rin-ne Tensho”.

Qual a relação entre o Mundo Espiritual e o homem?

O homem vem ao Mundo Material para cumprir a missão que lhe foi determinada por Deus, tenha ou não tenha consciência disso. No cumprimento dessa missão, acumula máculas no seu corpo espiritual. Chega, porém, um momento em que, por doença, velhice ou outros motivos, torna-se-lhe difícil continuar a cumpri-la. Quando isso ocorre, o espírito abandona o corpo e retorna ao Mundo Espiritual. Nesse sentido, desde tempos remotos chama-se “Nakigara” (invólucro vazio) ao corpo sem espírito, e “Karada” (invólucro) ao corpo carnal de uma pessoa viva.
Na ocasião em que o espírito entra no Mundo Espiritual, inicia-se, na maioria deles, o processo purificador das máculas. Dependendo do peso e da quantidade destas, logicamente ele vai ocupar um nível mais elevado ou mais baixo. O período de purificação é variável. Os períodos mais curtos duram poucos anos, às vezes dezenas, e os mais prolongados, centenas ou milhares de anos. Os espíritos que foram purificados até certo ponto, reencarnam, por determinação de Deus.
Essa é a ordem normal, porém, de acordo com a pessoa, há situações em que não se obedece a ela. Isso acontece com aqueles que, na ocasião da morte, têm forte apego à vida. Eles reencarnam antes de terem sido suficientemente purificados no Mundo Espiritual. Geralmente têm destino infeliz, porque lhes restam consideráveis máculas da vida anterior, que precisam ser eliminadas. Por essa razão é que muitos praticam o bem, mas vivem perseguidos pelos infortúnios. São pessoas que na vida anterior cometeram muitos pecados e, quando morreram, arrependeram-se seriamente, tomando a firme decisão de não persistir no erro. Esse propósito ficou impregnado em seu espírito, mas, como reencarnaram sem terem sido suficientemente purificadas, vivem sempre cercadas de sofrimento, apesar de detestarem o mal e praticarem o bem. Entretanto, não são poucos os exemplos de pessoas que, passando um período de infelicidade e tendo redimido os seus pecados, tornam-se subitamente felizes.
Há homens que se orgulham de não conhecerem outra mulher além de sua esposa, e outros que não desejam casar-se, terminando a vida solteiros. São indivíduos a quem as mulheres causaram muita infelicidade na vida anterior, e por esse motivo morreram com uma espécie de temor ao sexo feminino, sentimento que deixou marcas em seu espírito.
Algumas pessoas têm especial aversão ou receio de aves, insectos ou outros bichos. Isso tem origem na morte que tiveram, causada por um desses animais. O mesmo pode ser dito em relação àqueles que temem a água, o fogo ou os lugares altos. Outros têm medo de lugares onde se aglomera muita gente. Quando alguém sente isso, é porque em outra vida morreu pisoteado pela multidão. É interessante o pavor que certas criaturas têm de ficar sozinhas. Ministrei Johrei numa pessoa assim. Ela não podia ficar sozinha dentro de casa. Nessas ocasiões, saía para a rua e ficava esperando alguém chegar. Provavelmente, na vida anterior, tais pessoas faleceram de um mal súbito, quando estavam sozinhas.
Pelos diversos exemplos mencionados, concluímos que, no dia-a-dia da sua vida, o homem deve se esforçar para morrer em paz, sem apegos, temores e outras preocupações.
Quando uma pessoa nasce deformada ou aleijada, geralmente é porque reencarnou antes de estar suficientemente purificada no Mundo Espiritual. Por exemplo: antes de ser curada de fractura nas mãos ou nas pernas, provocada pela queda de um lugar alto.
Além do apego do próprio falecido, há outro motivo para a reencarnação prematura: a influência do apego dos familiares. É comum o caso de mulheres que engravidam logo após o falecimento de um filho querido. Esse novo filho é aquele que morreu e reencarnou prematuramente, em virtude do apego da mãe. Geralmente essas crianças não são muito felizes.
Existem pessoas sábias e pessoas ignorantes. Por quê? Pela diferença de idade entre suas almas: as primeiras têm alma velha; as segundas têm alma nova. A alma velha, por ter reencarnado muitas vezes, possui uma larga experiência do mundo, ao passo que a nova, por ter sido criada recentemente no Mundo Espiritual, tem pouca experiência, motivo pelo qual é mais ignorante. Como vemos, também há um processo de procriação no Mundo Espiritual.
Ainda podemos citar algumas experiências pelas quais muitos já passaram.
Certas pessoas, ao encontrarem alguém que nunca viram, têm a impressão de tratar-se de pessoa já conhecida. Sentem uma grande emoção, como se fossem pai e filho, ou irmãos; podem até experimentar um sentimento mais profundo. A razão é que na vida anterior eram parentes bem próximos ou tinham laços de estreita amizade; a isso se convencionou chamar de INNEN (afinidade espiritual).
Também, por ocasião de uma viagem, encontramos lugares pelos quais sentimos especial simpatia ou atracção e onde desejaríamos residir. É porque em outra vida residimos ou passamos muito tempo nesses locais.
No relacionamento entre homem e mulher, há casos em que ambos ficam em idílio ardente, que progride até se tornar um amor cego. A explicação é que na vida anterior, apesar de enamorados, eles não conseguiram unir-se. Entretanto, na vida actual, apresentando-se essa oportunidade, cria-se entre os dois um amor apaixonado.
Ao lermos ou ouvirmos falar de determinados personagens ou acontecimentos históricos, podemos sentir simpatia ou até ódio. Isso acontece porque já vivemos na época em que aqueles factos ocorreram, ou porque tivemos algum relacionamento com aqueles personagens.


Meishu-Sama, 5 de fevereiro de 1947

terça-feira, 28 de julho de 2015

A NOSSA RELIGIÃO E O UNIVERSALISMO: Ensinamento de Meishu-Sama



Observando o mundo actual, constatamos a existência de pessoas que, dizendo-se esquerdistas, direitistas ou neutras, vivem criando conflitos. É fácil o aparecimento de choques, entre esses grupos, em virtude de cada um se firmar em sua ideologia e tentar impô-la aos demais. Existem alguns cujo propósito é justamente provocar tais choques, mas isso não vem ao caso no momento.
Após a Segunda Guerra Mundial, o objectivo do povo japonês é a democracia, que, obviamente, visa o máximo de felicidade para o maior número de pessoas. Entretanto, se cada um insistir em suas ideologias e “ismos”, isso resultará em conflitos e, ao invés de se proporcionar felicidade às pessoas, se estará acarretando o máximo de desgraças. Quem o diz não sou eu apenas. Dentro do quadro social da actualidade, é uma tendência que realmente aparece clara em todos os sectores. Vejamos, por exemplo, os partidos políticos. Num mesmo partido, existem alas, ocorrem choques entre seus componentes, devido à diferença de pontos de vista, e há sempre o perigo de desagregação. Qualquer coisa que fuja a esses pontos de vista é considerada como inimiga, por isso não é fácil manter-se a coesão do partido. Planeia-se derrubar gabinetes que acabaram de ser compostos e até se insiste para que um gabinete formado apenas há dois ou três meses concretize as medidas políticas propostas por ocasião das eleições.
Raciocinemos. Por melhor que seja um político, é impossível ele cumprir suas promessas no prazo de seis meses ou mesmo um ano. É por esse motivo que o Gabinete Japonês muda tão rapidamente que nem dá tempo para esquentar as cadeiras. Nesse aspecto, assemelha-se ao da França. Na Inglaterra, o gabinete trabalhista saiu-se muito mal no primeiro ano de posse; se fosse no Japão, seria fortemente criticado, mas a tolerância dos ingleses é de facto extraordinária. Chegou a impressionar-nos a confiança que eles depositaram em Sir Attlee e a paciência com que ficaram aguardando os resultados. Passado o referido período, as coisas começaram a melhorar. Hoje em dia, parece que a situação da Inglaterra é muito boa, inclusive economicamente.
Nos Estados Unidos acontece o mesmo. Como o mandato presidencial é de quatro anos, é possível fazer uma política arrojada. Vencedores da Segunda Guerra Mundial, os americanos demonstraram grande tranquilidade económica, logo após o término do conflito, quando deram aquele magnífico exemplo que foi o Plano de Salvação da Europa e do Leste Asiático. Isso se deveu também às quatro eleições consecutivas do Presidente Roosevelt, o qual, governando durante dezesseis anos, pode tomar medidas ousadas, tendo obtido bons resultados.
Como expus anteriormente, a realidade actual do Japão é que ele não consegue deixar de comportar-se como país bitolado. Portanto, neste momento, todos os japoneses devem empenhar-se, antes de mais nada, em cultivar o espírito de tolerância. É aquilo de que mais necessitamos.
Se o objectivo da nossa Igreja é a construção de uma sociedade sem conflitos, primeiramente precisamos livrar-nos do estreito sentimento de orgulho que nos faz menosprezar os outros. Torna-se necessário caminharmos sem levar em conta se os ideais são da esquerda, da direita ou do meio, mas fundindo-os num ideal grande e nobre, que abranja tudo e ao qual se possa realmente chamar de mundial. Baptizamo-lo de Universalismo.
Meishu-Sama, 8 de abril de 1949


sexta-feira, 24 de julho de 2015

O SABER DAS COISAS: Ensinamento de Meishu-Sama



Creio que, em japonês, não há expressão de sentido mais profundo e subtil do que “mono o shiru” (o saber das coisas). Considero-a de difícil interpretação, por isso vou tentar esclarecê-la o melhor possível.
Analisando essa expressão, vemos que ela significa experimentar ilimitadamente tudo que existe no mundo, penetrar, captar a essência das coisas e exprimi-la de alguma forma. Ou melhor, descobrir o segredo de medir a acção e as consequências de determinado problema. Ao contrário, se alguém exibir teorias infantis, agir levianamente ou praticar acções sem perceber a censura e o desprezo dos outros, significa que não tem visão nem saber das coisas. Pertence ao grupo daqueles que se costuma chamar de imaturos, infantis ou grosseiros.
Esclarecido é quem possui vasto saber. Por aí vemos quão grande é o número de homens imaturos que não possuem esse saber das coisas, inclusive entre os homens públicos. Eles procuram exagerar e fazer alarde de questões insignificantes, sem se dar conta de que estão atraindo o desprezo dos esclarecidos. O seu comportamento nada mais é que a demonstração de sua própria inferioridade. Tais indivíduos são, infalivelmente, umas nulidades, homens de conceitos restritos (“Shojo”).
A eficiência e o crédito são sempre prejudicados pela acção dessas criaturas medíocres, empenhadas somente em elevar sua própria fama. Certamente é por causa de tantos elementos sem maturidade que não se consegue chegar a conclusões e resoluções mais rápidas nos debates políticos de hoje. Se a maioria fosse esclarecida, seria fácil um acordo. O problema é que os esclarecidos se retraem no silêncio, por detestarem discutir com gente teimosa. Os imaturos aproveitam essa oportunidade para se exibir, desejando tornar-se famosos, e a fama aumenta sua probabilidade de serem eleitos, por ocasião das eleições. Sendo assim, os menos esclarecidos representam a maioria, e os esclarecidos, a minoria. Uma prova disso é o facto e a necessidade de se passar longo tempo discutindo um problema – às vezes de somenos importância – para se encontrar uma solução.
Mas a verdade é que, apesar de os homens mais esclarecidos aparecerem menos, por serem modestos, suas opiniões acabam sempre triunfando. E isso não se limita ao mundo político. É natural, em todos os sectores da sociedade, que aqueles que são conhecidos pela sua competência sejam homens relativamente esclarecidos.
Até aqui me referi à parte moral. Passarei, em seguida, para o campo da Arte, que eu considero o melhor meio para explicar o presente assunto, já que a maioria dos homens esclarecidos são, ao mesmo tempo, dotados de senso estético muito elevado.
Exemplifiquemos, primeiramente, com o príncipe Shotoku, cujo vasto conhecimento sobre a cultura budista, principalmente na parte artística, ninguém poderá deixar de reconhecer. Temos a prova disso no Templo Horyuji e em outras construções, que ainda conservam o esplendor da sua magnificência. A sua famosa “Constituição dos 17 Artigos” pode ser considerada a base da lei japonesa.
Também podemos citar Yoshimassa Ashikaga, que, embora tenha sido muito criticado em outros sectores, na parte artística deixou-nos uma obra notável. Além de construir o Templo Guinkakuji (Pavilhão de Prata), foi apreciador da arte chinesa, tendo coleccionado objectos artísticos das eras Sung e Ming. Incentivou grandemente a arte japonesa, e as obras raras e valiosas criadas por sua iniciativa, conhecidas como “Obras preciosas de Higashi-yama”, ainda hoje deleitam o nosso senso artístico. O seu trabalho é realmente digno de louvor.
A maior honra, no entanto, desejamos conferir a Hideyoshi Toyotomi (unificador dos feudos, no ano de 1573). Ao lado de sua exuberante criação artística, intitulada “Momoyama”, devemos salientar o brilhante impulso dado por ele à arte da Cerimónia do Chá – cuja existência, até então, era obscura – protegendo Rikyu Senno, mestre da referida arte, naquele século. Graças a ele, houve um rápido desenvolvimento da cultura artística, e génios e grandes mestres surgiram uns após outros. Não fazem excepção Enshu Kobori e Chojiro, o génio da cerâmica. Este, como Ashikaga, além de obras japonesas e chinesas, coleccionou famosos objectos artísticos da Coreia, dando um novo impulso à cerâmica no Japão. Devemos lembrar, aqui, a existência de Koetsu Honnami. Ele foi pintor e calígrafo notável, tendo criado uma nova modalidade de “makiê” (arte que utiliza laca e madrepérola); na fabricação de cerâmicas, foi inimitável, graças à sua originalidade e versatilidade. A sua maior contribuição, que ele próprio não previra, foi ter influenciado, cem anos após seu falecimento, o famoso mestre Korin Ogata, expoente máximo do Japão no sector artístico, o qual foi admirador de Koetsu e o superou, conquistando grandiosa fama. Também não podemos omitir os oleiros Ninsei e Kenzan. Desta corrente surgiu Hoitsu, que se fez notar, também, pela sua habilidade artística.
A grandeza de Hideyoshi Toyotomi reside no facto de ter compreendido a Arte ainda na mocidade e coleccionado obras-primas, o que não deixa de ser algo surpreendente, dado que ele era filho de lavrador. Geralmente, além de crescer sob condições favoráveis, ou melhor, na classe acima da média, é necessário um grande esforço para se atingir o nível do “saber das coisas”. Hideyoshi, portanto, é de facto um homem extraordinário, pois atingiu esse nível apesar de sua origem humilde e de ter vivido continuamente em campos de batalha.
Lancemos, agora, uma vista sobre a arte literária.
Na poesia, sobressaem, indiscutivelmente, Saigyo e Basho. As obras destes dois expoentes revelam ter sido realizadas por quem realmente possui o “saber das coisas”. Nunca deixo de admirar estes poemas, suas obras principais:

“A solidão envolve
Até um coração indiferente,
Quando as narcejas levantam vôo do pântano,
Nos crepúsculos do outono.”
Saigyo (Waka)

“O canto das cigarras
Penetra no silêncio
E nas rochas.”
Basho (Haiku)

Uma pessoa que também merece ser lembrada é o aristocrata Unshu Matsudaira, conhecido pelo nome de Fumai. Ele coleccionou inúmeras obras de arte, classificou-as, protegeu-as da dispersão e deu impulso à Cerimónia do Chá. É digno de toda a nossa consideração.
Entre os esclarecidos da época moderna, citaremos o falecido actor Danjuro Itikawa.
Vimos, em linhas gerais, alguns dos principais representantes da arte japonesa considerados esclarecidos. São homens civilizados no mais alto grau, e é escusado dizer o quanto colaboraram para alimentar a alma do povo, enriquecendo-lhe o gosto estético e elevando-lhe os sentimentos. Naturalmente, todos sabem que as invenções, as descobertas e o progresso do ensino contribuíram para a cultura da humanidade, mas convém recordar a grande contribuição que, em silêncio, as obras dos esclarecidos trouxeram à civilização.


Meishu-Sama, 15 de agosto de 1950

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